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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Mérito e Sociedade

Numa altura em que os 2 grandes partidos já não me conseguiam convencer que são capazes de olhar mais além do assalto ao Orçamento de Estado e respectivos "jobs for tha boys" (fantástica frase), considerei minha responsabilidade enquanto cidadã olhar para para todas as alternativas partidárias, de forma séria, que é como quem diz, fui ler os programas eleitorais.

Dois partidos tinham programas que me chamaram à atenção: MEP e MMS, pelo facto de terem propostas concretas, minimamente realistas e nas quais eu me revia. Seriam alternativas viáveis de governo, hoje? Nenhum deles. Mas, segundo a avaliação dos seus programas, teriam muito a contribuir, em termos de propostas, no âmbito da assembleia da república. É importante não esquecer que a podridão da nossa política não se limita ao governo e ao partido do poder, deve-se também a todos aqueles à sua volta que consentem essa mesma podridão, na esperança de um dia beneficiar do mesmo sistema instalado.

Foi interessante ver o progresso de ambos os partidos entre as europeias e as legislativas. 

A "queda" do MEP (Movimento Esperança Portugal) pela ausência do factor Laurinda Alves foi acentuada nas legislativas. Mas fizeram uma campanha exemplar: coerente, sempre pela positiva, sempre com um enorme bom senso, sempre com uma atitude construtiva e propostas viáveis e realistas, de que Portugal com certeza beneficiaria.

O MMS teve um percurso bem mais curioso. Relançaram a campanha renovando o site, que ficou pior do que se fosse um simples blog, e onde nunca chegaram a colocar o programa eleitoral (neste momento, já existe um minusculo link no topo esquerdo do site, mas não leva a lado nenhum). Gostaria de vos convidar a contrapôr um documento chamado "soluções para portugal" (com as linhas de orientação que estiveram nas bases da criação do partido), com aquilo que conhecem da propaganda do partido. Infelizmente, nem sequer esse documento, en lieu de um programa eleitoral, se encontra online neste renovado site (também esse link não leva a lado nenhum).

E talvez ainda bem, porque os pontos em comum entre as propostas aprovadas antes das eleições e a propaganda que se lhes seguiu mal se vêem. A propaganda veio cheia de medidas polémicas e totalmente improvisadas na hora de fazer os cartazes, medidas como a castração química, o primeiro emprego garantido pelo estado ou o despejo de inquilinos em 72 horas. Todos nós as vimos na propaganda do MMS.

Descendo ao pormenor dos panfletos, seria de esperar uma abordagem mais aprofundada às principais propostas do partido - os circulos uninominais, concretização das propostas para a exploração da zona marítima portuguesa, a inclusão das actividades de responsabilidade social no ensino, entre outras. Pois tais medidas não passavam de uma linha no meio de tantas outras, com propostas sem qualquer tipo de seriedade, que eu caracterizaria, precisamente, como "panfletárias". As propostas para o sistema fiscal então, são uma loucura.

Ao longo de toda a campanha o MMS foi-se agarrando com unhas e dentes a tudo o que pudesse criar um bocadinho de polémica e, consequentemente, a fugaz atenção dos media. O pouco que conseguiu foi à custa de propaganda de propostas que não foram sequer discutidas, revistas e trabalhadas internamente. 

Excelente exemplo vindo de um partido que se chama "Mérito e Sociedade". 

Para terminar com a cereja em cima do bolo, o líder do MMS acusou o MEP de "maus hábitos característicos dos grandes partidos" por terem contraído uma dívida de 200.000 euros para campanha, com a qual agora têm de lidar (e com a qual os militantes têm sido solidários, na medida do possível). 

O que não lhes falta é moral para falar de maus hábitos característicos dos grandes partidos. Tanta é a ânsia por se evidenciarem, apontando defeitos nos outros que utilizam qualquer pretexto para o fazer. Pela minha parte, só acho é bem que o MEP tenha transparência no seu financiamento e que peça solidariedade a quem acredita no projecto político, ao contrário do "mau hábito" de não dar contas de onde vem o dinheiro nem para onde vai.

Na minha óptica, o MMS padece de muitos "maus hábitos característicos dos grandes partidos" que são bem mais graves, tais como: desorganização interna, ânsia de protagonismo à custa da incoerência, querer mexer em tudo sem aprofundar nada, falta de conhecimento técnico por área de intervenção (ou falta de capacidade para o aproveitar aquando da elaboração de propostas), etc... 

Concluindo, é curioso ver que o "Movimento Esperança Portugual" teve mais de "Mérito" e de "Sociedade" neste período eleitoral do que o próprio MMS.

Quanto ao MEP, já reiterou a sua vontade de se manter no activo, mesmo tendo em conta o empréstimo a que têm de fazer face. Infelizmente, os novos partidos não têm grandes alternativas de financiamento até atingirem os 50.000 votos mínimo para aceder ao financiamento, e nestas condições, nada mais lógico do que a contribuição de quem quer alternativa aos "do costume".

2 comentários:

zé sequeira disse...

Cheguei a acreditar que o MEP tivesse algum sucesso. No entanto, no fim, venceu a lógica partidária do voto útil. O sucesso da Laurinda deveu-se ao facto de, nas esuropeias, essa lógica não prevalecer.

Quanto a mim isto só se resolve com eleições por voto uninominal, com intervenção do eleitor no interior da própria lista apresentada a sufrágio. Um dia destes escrevo a coisa de modo mai completo.

bj

Joana Nicolau disse...

Também cheguei a acreditar que sim, mas como todos aprendemos com as últimas eleições, não se pode transpor resultados nas europeias para resultados nas legislativas. A falta da Laurinda Alves que, parecendo que não, teve a facilidade de ir às Tardes da Julia e coisas afins, não foi facilmente ultrapassável.

O voto uninominal é defendido por vários partidos pequenos, e eu também concordo. Só quando a política tem um rosto a quem possamos pedir contas directamente é que conseguimos pedir contas a quem elegemos.

Aguardo o tal texto mai completo com expectativa! :)