Crónicas da minha rua
Meus Ricos quatro contos quinhentos e cinquenta
O seu nome, sussurrado entre os que o conheciam de vista, era: - “Dótor Trombeiro”. Assim mesmo com um ó bem aberto e sem u. Deste modo, acentuava-se a componente sarcástica e pejorativa, da alcunha. O “Dótor”, tinha sido durante muitos anos, professor de Filosofia e de História no Liceu Passos Manuel, em Lisboa. O “Trombeiro” vinha do facto de ele, sendo velho, continuar sexualmente muito activo, quer com olhares e convites a senhoras de várias idades e condições sociais, quer através do pagamento de serviços a senhoras que não estavam dispostas a prestar-lhos gratuitamente. Com aquela idade e com tanto apetite sexual, algum invejoso achou que o homem não deveria ter actividade sexual para além da língua e, como tal, espetou-lhe com a odiosa alcunha de “Trombeiro” .
No tempo em que, estudar no café era, não apenas um hábito mas também uma necessidade e, muitas vezes, a única possibilidade, o nosso doutor, frequentava pelo menos uma dúzia de cafés diferentes. Estava geralmente acompanhada duma presença feminina que variava consoante as horas do dia mas também com a altura do mês. Tal variedade, obrigava a um contínuo e porfiado trabalho de côrte e também a uma certa disponibilidade financeira. O Doutor não se inibia por isso, de, mesmo acompanhado, oferecer os seus préstimos a todas e quaisquer estudantes que estivessem nas imediações. Podiam contar com ele para a Filosofia, para a História e, para o resto.
O Homem era vivaço e sabidão mas, há sempre alguém que nalguma altura nos leva a melhor.
Certo dia, com a sapiência senil que nos leva sempre a achar que ainda somos bonitos, charmosos e capazes de despertar o interesse das jovens, o nosso Dótor, perdeu-se de amores por uma donzela apenas 30 anos mais nova mas já muito rodada nas engrenagens da vida. Nessa mesma tarde aprontaram uma “sesta” numa das pensões da Rua Gonçalves Crespo e o nosso destemido amante, depressa se libertou das roupas e ficou em culotes face à jovem princesa. O fogoso “cabrito” nem deu por isso mas a nossa valquíria a pretexto de ir à casa de banho, pisgou-se porta fora com a carteira do nosso herói. Ainda se ouviram os impropérios próprios para tal ocasião mas a flausina, convertida de princesa em puta, pela boca do nosso homem, é que é nunca mais apareceu.
Nessa mesma tarde, mal recomposto da aventura, o Dótor Trombeiro, enquanto tomava um galão morninho e comia uma torrada com pouca manteiga queixava-se amargamente ao confidente de sempre, um dos empregados de mesa do Café Rialto.
- Já viste o meu azar ó Joaquim. Aquela puta ficou-se a rir e ainda me levou a carteira. Meus ricos quatro contos quinhentos e cinquenta.
Os estudantes do costume, em que se incluiam ilustres membros desta grande fraternidade escória, não puderam deixar de se "cú mover", entre risadas de escárnio, olhares trocistas e gestos obscenos, comentando entre si: "Coitado do Dótor Trombeiro; mais valia ficar pelas lambusices e deixar de ser putanheiro"
Toma que é para aprenderes.
MORAL DA HISTÓRIA
"Quem nasceu para lamber não queira lagosta comer".
ou ainda como homenagem ao nosso amigo Júlio César e ao preço manifestamente exagerado de alguns bicos
"Quem num broche os olhos revirar é melhor a carteira não levar"
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
terça-feira, 5 de junho de 2007
Guardar livros para quê?
O velho Geadas vive lá na rua desde sempre. Pelo menos, desde sempre, que eu existo. É de certeza muito mais velho que a segunda guerra mundial e, já devia esgalhar a “sua” por altura da primeira. Tem uma cara enrugada de quem tem pelo menos cem anos. Os olhos são dum tamanho descomunal. Ou pelo menos parecem, a julgar pelo que se vê através dos vidros - fundo de garrafa, que ele pendura numa velha armação. Por detrás das orelhas e à volta da cabeça vê-se uma amálgama de cordéis que sustentam em precário e desengonçado equilíbrio, os óculos, a armação, o chapéu e quiça a própria cabeça que se prende ao tronco através dum finíssimo pescoço que é esguio como um eucalipto mas rugoso como um sobreiro.
Usa um velho chapéu de feltro o tempo todo. Dele pendem os cordéis como se fossem teias de aranha e que, não raro, lhe provocam comichão. Nessa altura, irritado, tira o chapéu e coça a cabeça e as orelhas, rematando o ritual com uma cuspidela nas mãos e, com a brilhantina improvisada, alisa três ou quatro vezes a careca e algumas farripas de cabelo. Reconfortado com a improvisada penteadela, volta a equilibrar o chapéu na cabeça juntamente com os cordéis e os óculos.
Seja Inverno ou seja Verão, faça frio ou muito calor, o velho Geadas nunca tira o seu sobretudo escuro de espinha de bacalhau e que há muitos anos atrás deve ter tido uma cor bastante mais clara. Hoje, pelo menos trinta anos depois de ter sido novo, o sobretudo parece uma enorme nódoa, manchada de pequenas nódoas que tanto podem ser gordura de comida, como dos intermináveis galões escuros, das bolas de Berlim, ou dos bagaços que lhe rematam o almoço. A gola está brilhante, com a camada de sarro que tem e, das mangas, tirava-se a gordura suficiente para estrelar ovos para uma casa de família. Na lapela um emblema do Oriental, o seu clube de sempre.
Já se sabia lá na Pastelaria do bairro que o velhote não tirava o sobretudo para fazer as suas necessidades. O Joaõzito, 8 anos, filho do Sô Manel e da Dona Rosa, donos da Pastelaria “Mimosa do Oriente” tinha a mania de espreitar por baixo da porta da retrete, e relatar o que via. Essa curiosidade também já lhe valera um bom par de tabefes do Vitorino, mecânico de profissão, que não achou piada ao divertimento do miúdo e lhe espetou duas berlaitadas nas ventas, perante o olhar resignado do pai e os berros de “ainda comes mais se voltas a fazer” da mãe. Mas não era necessária essa informação do Joãozinho pois ela estava bem patente no próprio sobretudo, quer através de áreas carcomidas pelo ácido úrico, quer das suspeitas manchas acastanhadas que o sobretudo exibia.
Será que o velhote dorme com o sobretudo? Não seria admiração por aí além mas quando acossavam o velhote com a pergunta este, rezingão e chateado, respondia que só dormia com ceroulas e pijama.
Das vezes em que o Joãozito conseguia roubar, por debaixo da porta da casa de banho, a bengala do velhote, ouviam-se um churrilho de impropérios, asneiras e ameaças que muito divertiam o puto e, causavam uma forte risada entre a clientela. Não havia então, grande respeito e consideração pela idade e, tal como com muitos deficientes, eram um motivo de chacota. O Geadas, quando podia, vingava-se, desfechando uma bengalada nas costas do garoto. Numas das vezes até lhe acertou na cabeça e provocou-lhe um respeitável galo que o livrou de chatices quase seis semanas.
O velho Geadas trabalhou 50 anos como fiel de um armazém de vinhos na zona do Poço do Bispo. Dormia frequentemente no próprio armazém, e aproveitava muito do tempo de vigília para a leitura. Era um verdadeiro viciado por livros policiais não se importando de os ler repetidas vezes, citando de cor as passagens e dizeres que mais o tinham impressionado. Nos primeiros anos de reforma continuou a ler com grande regularidade e sofreguidão. Tem uma verdadeira paixão por livros e pela leitura. Mas de há uns meses para cá as coisas estão a mudar. Agora, quem olhar para o Geadas, vê que ele rasga os livros que lê.
A manhã, é dedicada à leitura do Diário de Notícias, propriedade do café. O nosso amigo, lê as gordas da política, escarafuncha ao de leve notícias de escândalos, roubos, agressões e homicídios, passa os olhos pela necrologia a ver se encontra alguma cara conhecida e sobretudo para confirmar que a dele ainda continua ausente da fatídica coluna. Faz as palavras cruzadas e um ou outro passatempo que por lá encontre e está lido o jornal. À tarde, pega num livro policial que transporta no bolso do sobretudo. Já tem umas tantas folhas rasgadas mas o velhote retoma a leitura sempre no início. Lida a folha, rasga-a e coloca-a de lado, formando uma pilha à medida que a leitura avança.
- Geadas, porque raio é que você está a rasgar os livros? pergunto-lhe.
Ele responde-me com uma lógica que não me ocorrera:
- O que é que você quer? Com as dificuldades da vista e a idade que eu já tenho, não o vou ler outra vez e, ao menos assim, sei sempre em que página vou.
Usa um velho chapéu de feltro o tempo todo. Dele pendem os cordéis como se fossem teias de aranha e que, não raro, lhe provocam comichão. Nessa altura, irritado, tira o chapéu e coça a cabeça e as orelhas, rematando o ritual com uma cuspidela nas mãos e, com a brilhantina improvisada, alisa três ou quatro vezes a careca e algumas farripas de cabelo. Reconfortado com a improvisada penteadela, volta a equilibrar o chapéu na cabeça juntamente com os cordéis e os óculos.
Seja Inverno ou seja Verão, faça frio ou muito calor, o velho Geadas nunca tira o seu sobretudo escuro de espinha de bacalhau e que há muitos anos atrás deve ter tido uma cor bastante mais clara. Hoje, pelo menos trinta anos depois de ter sido novo, o sobretudo parece uma enorme nódoa, manchada de pequenas nódoas que tanto podem ser gordura de comida, como dos intermináveis galões escuros, das bolas de Berlim, ou dos bagaços que lhe rematam o almoço. A gola está brilhante, com a camada de sarro que tem e, das mangas, tirava-se a gordura suficiente para estrelar ovos para uma casa de família. Na lapela um emblema do Oriental, o seu clube de sempre.
Já se sabia lá na Pastelaria do bairro que o velhote não tirava o sobretudo para fazer as suas necessidades. O Joaõzito, 8 anos, filho do Sô Manel e da Dona Rosa, donos da Pastelaria “Mimosa do Oriente” tinha a mania de espreitar por baixo da porta da retrete, e relatar o que via. Essa curiosidade também já lhe valera um bom par de tabefes do Vitorino, mecânico de profissão, que não achou piada ao divertimento do miúdo e lhe espetou duas berlaitadas nas ventas, perante o olhar resignado do pai e os berros de “ainda comes mais se voltas a fazer” da mãe. Mas não era necessária essa informação do Joãozinho pois ela estava bem patente no próprio sobretudo, quer através de áreas carcomidas pelo ácido úrico, quer das suspeitas manchas acastanhadas que o sobretudo exibia.
Será que o velhote dorme com o sobretudo? Não seria admiração por aí além mas quando acossavam o velhote com a pergunta este, rezingão e chateado, respondia que só dormia com ceroulas e pijama.
Das vezes em que o Joãozito conseguia roubar, por debaixo da porta da casa de banho, a bengala do velhote, ouviam-se um churrilho de impropérios, asneiras e ameaças que muito divertiam o puto e, causavam uma forte risada entre a clientela. Não havia então, grande respeito e consideração pela idade e, tal como com muitos deficientes, eram um motivo de chacota. O Geadas, quando podia, vingava-se, desfechando uma bengalada nas costas do garoto. Numas das vezes até lhe acertou na cabeça e provocou-lhe um respeitável galo que o livrou de chatices quase seis semanas.
O velho Geadas trabalhou 50 anos como fiel de um armazém de vinhos na zona do Poço do Bispo. Dormia frequentemente no próprio armazém, e aproveitava muito do tempo de vigília para a leitura. Era um verdadeiro viciado por livros policiais não se importando de os ler repetidas vezes, citando de cor as passagens e dizeres que mais o tinham impressionado. Nos primeiros anos de reforma continuou a ler com grande regularidade e sofreguidão. Tem uma verdadeira paixão por livros e pela leitura. Mas de há uns meses para cá as coisas estão a mudar. Agora, quem olhar para o Geadas, vê que ele rasga os livros que lê.
A manhã, é dedicada à leitura do Diário de Notícias, propriedade do café. O nosso amigo, lê as gordas da política, escarafuncha ao de leve notícias de escândalos, roubos, agressões e homicídios, passa os olhos pela necrologia a ver se encontra alguma cara conhecida e sobretudo para confirmar que a dele ainda continua ausente da fatídica coluna. Faz as palavras cruzadas e um ou outro passatempo que por lá encontre e está lido o jornal. À tarde, pega num livro policial que transporta no bolso do sobretudo. Já tem umas tantas folhas rasgadas mas o velhote retoma a leitura sempre no início. Lida a folha, rasga-a e coloca-a de lado, formando uma pilha à medida que a leitura avança.
- Geadas, porque raio é que você está a rasgar os livros? pergunto-lhe.
Ele responde-me com uma lógica que não me ocorrera:
- O que é que você quer? Com as dificuldades da vista e a idade que eu já tenho, não o vou ler outra vez e, ao menos assim, sei sempre em que página vou.
sábado, 2 de junho de 2007
Jogando à bola com a “Judite”
A “estrada nova” ficava entalada entre as instalações da Polícia Judiciária e a Escola Superior de Medicina Veterinária. Tinha uma entrada a partir da Rua Gomes Freire, mas não tinha saída para lado nenhum. Era bastante inclinada e ao cimo era rematada, de frente, com um muro de 2 metros pertencente à escola e, do lado direito, com um portão da “Judite”. Com o correr dos anos e a dificuldade de estacionamento, foi transformada em Parque privativo da PJ com direito a cancela.
Não era muito fácil jogar à bola num terreno com aquelas características. Era fortemente inclinado e apertado mas, era o que havia. Para evitar que as bolas fossem parar ao fim da rua, as balizas eram no muro da Veterinária. Consoante o número de futebolistas era, par ou ímpar, assim jogávamos com uma ou duas balizas que estavam uma ao lado da outra, marcadas no chão com pedras ou casacos e, ao longo do muro com linhas de giz – um motivo de grande controvérsia com o sr. Pompeu, guarda e vigilante da Veterinária que, quando nos apanhava, nos obrigava a lavar e limpar os ditos riscos, enquanto nós barafustávamos e acusávamos um qualquer ausente, pela façanha. Não raro os remates mais desastrados entravam na própria baliza. Outros com certeira pontaria à baliza do adversário eram defendidos pelo guarda redes da própria equipa, que não queria arriscar um frango.
Sem a presença de carros, na altura ainda bastante raros, fazíamos futeboladas que duravam entre uma e seis horas. Ocasionalmente eramos interrompidos pela presença do “velho” ou da “velha “ de algum dos participantes que, não raro, era corrido à chapada até casa, preso por uma orelha e a escutar um sermão com a invariável temática do estudo, das notas, das faltas e o prognóstico dum futuro negro e a trabalhar nas obras. Naquela altura, os maus tratos no seio familiar não eram considerados “violência doméstica” nem o código penal defendia uns energúmenos que se juntavam para jogar à bola nas barbas da judite em vez de estarem a “marrar” como era sua obrigação.
Neste ambiente de segurança e previsibilidade, lá íamos fazendo as nossas jogatanas sem que algo de verdadeiramente perigoso nos ensombrasse as tardes e noites de bola.
Porém um dia, algo de aterrador nos aconteceu. Uns bófias da judite, que não estavam a gostar das nossas performances futebolísticas, resolveram fazer uma caçada aos “putos” e, pregar-nos um susto ou coisa parecida, que nos levaria até às instalações da Judiciária para uma “espécie de
interrogatório” com a dramatização inerente e, posterior chamada dos pais para participação da ocorrência e entrega dos delinquentes aos respectivos progenitores. O resultado seria certamente demolidor. Chegados a casa, haveria uma carga de porrada inicial, à base de estalada na cara e, fiveladas de cinto no traseiro, acompanhada com sermão e missa cantada. Ficávamos proibidos de sair à rua e, muito menos, de nos darmos com a canalha que nos andava sempre a desencaminhar. Qualquer pequena falha era punida com castigo corporal violento e com permanente e oportuna referência ao sucedido, e à vergonha que os nossos pais passavam por terem filhos assim. O incidente colocáva-nos com a espada de Demócles semienterrada no pescoço e sempre pronta a provocar novo sangramento. Demoraria meses até que tudo fosse adormecido e colocado em banho maria. Esquecido, isso nunca. Estava fora de questão.
Os agentes da judite, delinearam um plano simplista. Afinal tratava-se de dar uma lição a uns putos que, tinham a suprema lata de vir jogar à bola nas barbas da polícia.
Vieram dois pela Estrada Nova acima e outros dois sairam das próprias instalações da judite. Pensavam eles que, com um as duas vias cortadas, era só apanhar os patos.
Mas era obviamente uma caça de raposa e coelho. A raposa corria para ganhar o almoço e o coelho para salvar a vida.
Mal um de nós deu o alarme, em menos de um segundo estávamos a trepar o partão metálico da própria judite e a saltar o muro de dois metros que nos colocava no interior das instalações da Escola de Medicina Veterinária. Perseguidos e acossados pelos agentes que, estavam a ver as presas a fugir, corremos com quanta gana tínhamos pelos caminhos ajardinados até um gradeamento elevado, distante cerca de trezentos metros do local do “crime”. Aí chegados, passámos por entre duas grades que tinhamos anteriormente alargado com um pé de cabra, “encontrado” numa obra, precisamente para estas eventualidades. Sem hesitar, lançámo-nos pelo ar para aterrar no passeio da Rua da Escola de Medicina Veterinária. Ainda conseguimos ver o olhar furioso, mas conformado, dos agentes que não conseguiam passar as grades. Mas não tivemos tempo de saborear a vitória. O medo era tanto que corremos quase sem parar até ao Saldanha e depois, ao longo de toda a Av. da República, em direcção ao Campo Grande. Só parámos na Pista das Bicicletas, já agora, para dar uma voltinha. Reunidas todas as economias conseguimos arranjar três escudos que nos íam permitir alugar duas bicicletas durante 15 minutos. Como eramos quatro dava sete minuos e meio a cada um. Daria, digo eu. Pois com a nossa manha conseguíamos sempre um extra. Para já ninguém tinha relógio. Essa era uma prenda a receber, como prémio da conclusão do exame da quarta classe. Lá chegaria o tempo. Quando, pelos nossos cálculos, o quarto de hora se estava a esgotar, apenas circulávamos no extremo da pista e, esperávamos calmamente que nos viessem chamar para entregar a bicicleta. Deste modo ainda conseguíamos o percurso extra até ao local de estacionamento das biclas. Lá chegados, eramos alvo da ira do dono da loja que nos enxovalhava, insultava e ameaçava, jurando que nunca mais nos alugaria uma bicicleta. Ouvida a palestra, lá seguíamos para casa ao ritmo de um quarteirão a correr e outr a andar, até chegarmos ao Saldanha. Aí abrandávamos o passo para podermos chegar a casa com um ar mais normal e pouco suado. Afinal, tínhamos dito aos nossos pais que estávamos a brincar à carica no passeio da rua.
Não sei onde é que íamos buscar energia nem imaginação mas, lá que estávamos sempre a inventar sarilhos, lá isso estávamos. E afinal eu era o mais velho, chefe da clique e, já só me faltavam dois meses para fazer nove anos.
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