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segunda-feira, 13 de abril de 2009

CRISE? QUAL CRISE? NÃO HÁ CRISE

CRISE? QUAL CRISE? NÃO HÁ CRISE

Há uns anos atrás, anos oitenta, do mesmo modo que os adolescentes de hoje usam o “bué” práqui e “bué” prácolá, os adolescentes de então, para dizer que “não há problema” diziam “não há crise” (a versão queniana “Akuna matata” da língua swaili).

Nos tempos que correm, a crise, está profundamente entranhada na generalidade das mentes e com uma dimensão universal – já que se trata da primeira verdadeira crise desta nova época de globalização.
Não vou fazer a apologia do “não há crise”, longe de mim, brincar com as reais dificuldades de muitas pessoas, sobretudo das que perderam o emprego com muitos dos acontecimentos que se estão a passar.
Mas deixem-me por uns instantes remar contra a maré, ao sabor de pensamentos mais ou menos néscios e estapafúrdios, obviamente não fundamentados em análises de indicadores económicos e índices de tudo e mais alguma coisa, que nos espartilham e condicionam a nossa vida, a ponto de, mesmo que a crise. ou lá o que isso quer que seja, não nos atinja, vivemos com ela na cabeça e com ela condicionamos as nossas acções e a nossa vida.

Vamos por partes, para perceber que a generalidade dos Portugueses não está a sofrer qualquer crise e que a tão propalada CRISE é uma invenção de banqueiros, grandes empresas e políticos para mais uma vez e, como sempre, nos atazanarem o juízo

1) Como é que 10.000 “sem abrigo” sentem esta crise? Mas eles não viveram sempre em crise? Para estes desamparados e marginalizados da sociedade “não há crise” . Pelo menos não há nenhuma crise nova. Sempre andaram aos caixotes e viveram da caridade alheia, pelo que a crise passa-lhes ao lado. Mais até, muita gente acaba por dar agora esmolas que não dava noutras alturas, num espécie de “efeito Bradley” aplicado a mendigos. Estes estão salvos da crise. Não têm que temer pelos depósitos bancários que não têm, nem pelo preço da gasolina para atestar carros ou mesmo preocupar-se com os aumentos das contas da água, do gás ou da electricidade. As rendas ou prestações da casa para quem vive e dorme em caixotes de papelão também não são uma grande preocupação. São uns felizardos esta crise não os atinge.


2) Há cerca de 3 milhões de pensionistas com pensões que andarão abaixo dos 500 €. Mas como é que uma pessoa que consegue sobreviver durante um mês com 500 €, vê sinais ou resquícios de uma crise? Não pode vê-los, até porque, se gastar a pensão do mês para comprar óculos, não vai poder comer nada durante esse mês e, a única coisa que vai conseguir dizer é: “ estou com uma fome que nem vejo”. Quem se habituou a sobreviver com estas pensões e consegue pagar água, gás, luz, renda da casa, comida, alimentação e remédios concentra em si próprio imensas virtudes típicas de um artista de Circo: depois de trabalhar que nem um animal, tratam-no como palhaço, é um grande equilibrista das receitas e despesas de tão magro orçamento, faz de saltimbanco para procurar o mais barato e está proibido de adoecer, logo só merece o aplauso generalizado dos portugueses. De uma assentada três milhões de portugueses são poupados à crise.

3) O salário médio em Portugal, atinge a exorbitante quantia de 750 € por mês. Daí que, depois de pagar a renda ou a prestação da casa, as contas de água, gás e luz, a alimentação, vestuário e calçado, farmácia, livros e escolas dos miúdos, ainda sobra muito dinheiro para uma vida cultural intensa, frente à televisão e, férias em casa ou no parque de campismo para estar em contacto com a natureza e deste modo praticar uma vida saudável. Querem melhor vida que esta? Chamam a isto crise? Como a gasolina desceu uns cêntimos até já podem ir dar uma volta saloia até à Malveira e aproveitar para comprar nos mercados de Domingo batatas e cebolas à saca, frangos a 1€ o kilo, calças de ganga a 5 €., 3 Tshirts por 5€ e 9 pares de meias feitos na China, por 5 €. Com preços destes só não se veste e come quem não quer.
Com as taxas de juro a descer, até já começa a sobrar dinheiro para colocar em Certificados de Aforro e investir em Planos de Reforma para garantir na velhice a vida digna que agora têm. São 4,5 milhões de portugueses médios, com salários médios, uma vida média, que têm filhos em escolas médias, com notas médias e uma saúde média. Trabalham em empregos médios, vivem em casas médias feitas para a classe média e vão em transportes públicos médios, com um conforto médio e que apenas andam atrasados dentro da média. Consomem a cultura dentro da média, especialmente telenovelas de qualidade média e lêm revistas e jornais médios feitos por jornalistas médios com uma qualidade média.
Como se vê tudo dentro da média. Mais 4,5 milhões


4) Há em Portugal 2 milhões de jovens em idade escolar. Mas garanto-vos que nenhum sentiu os efeitos desta crise. Têm “bué” em que pensar. Não dá pra ligar a essas minudências tipo “crise” Os mais pequenos têm o Magalhães para se entreter e jogos com fartura, arranjados por um colega que arranjou um software pirata para fazer download à sorrelfa e depois copiá-los para uns cartões próprios que qualquer um arranja no Martim Moniz. Aliás o melhor sítio de Lisboa, para libertar telemóveis do espartilho das operadoras. A malta mais velha já tem que pensar em sexo e bejecas. Sexo sai barato e é curtido mas, já se sabe, é muito e por pouco tempo. Os preservativos estão caros mas dá pra pagar. Sobra tempo prós shots e prás bejecas. Aproveitam-se as promoções da crise e com o preço duma bebedeira pagam-se duas. Até porque as garrafas no porta bagagens para os reforços ficam sempre muito em conta. Uma vida destas não se pode dizer que é uma vida de crise; se até compro mais com o mesmo dinheiro....


5) Temos depois um grupo de 500.000 portugueses que têm salários acima da média. Mais de 1500 € por mês. Se estás a ler esta porcaria é quase certo que estás nesse grupo. Sem saberes, fazes parte duma elite. A Elite dos que mais ganham em Portugal. Com salários acima deste valor nem te fica bem falares em crise. Afinal o que diriam os teus compatriotas dos grupos anteriores? Falas de barriga cheia...Se eu tivesse o teu salário... Convenhamos pois que, embora te queixes dos impostos que te levam até o tutano, não estás em condições de dizer que foste apanhado pela crise. Tu até tens uma casa de férias e vais fazer férias no Estrangeiro. Queixaste de quê? Está tudo a baixar. Ele é a gasolina, ele é as taxas de juro, ele é as promoções 2 pelo preço de 1, 3 pelo preço de 2 ou na pior das hipóteses 4 pelo preço de 3. Até a happy hour agora chega a ir das 15 h às 19h. Quatro horas de happy hour pelo preço de uma. Coma um bife da vazia e venha cá comer outro de borla no prazo de 15 dias. Os saldos estenderam-se de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro. Vão ter de inventar um novo mês para quando não há saldos. Como fizeram com o 13º mês e o 14º mês – só ainda não lhes deram o nome de Trezembro e Quatorzembro. Nesta classe de portugueses há até quem receba o Quinzembro e ainda distribuição de lucros. Não podem queixar-se da Crise sob pena de caírem no ridículo.


6) Temos finalmente um número infinitesimal dos que realmente têm razão para se queixar da crise. Serão certamente em menor número do que os sem abrigo. Mil? Dois mil? Não certamente mais do que isso. Para começar os causadores da sua própria crise os Banqueiros e as Administrações dos Bancos. Eles que durante anos levaram até couro e cabelo para casa, que acumularam fortunas colossais de muitos milhões de euros, de repente vêm-se vilipendiados na praça pública como se fossem gatunos e ladrões. Eles que conseguiram inventar fabulosos produtos financeiros, que retiravam do controlo dos bancos centrais biliões de euros. Eles que se entretinham a vender estes limpos e cristalinos produtos através de fundos e de fundos muito profundos, que de tão fundos eram completamente opacos. Que vendiam também gato por lebre, com certificados de garantia e tudo, e que assim faziam prosperar os seus bancos, já que uma economia saudável tem que ter instituições financeiras fortes. Eles que nesta sua abnegada missão de ajudar o país mais não queriam em troca que umas miseráveis dezenas ou, vá lá, umas centenas de milhões de euros. Que diabo para gente que dá o seu melhor na profissão, não lhe vão querer pagar o mesmo que a um Ministro ou mesmo um Presidente da República. Os 8000 € de ordenado não íam dar nem prós charutos. Cambada de idiotas, vocês sabem lá o preço a que estão os charutos. Também não lhes venham cá falar no ordenado do Governador do Banco de Portugal, ou de um dos muitos gestores públicos que empocham ordenadecos entre os 10.000 e os 25.000 € . O que fazem esses pobretanas com quantias tão rídiculas? Acantonaram-se todos nalgum condomínio de barracas no bairro da Curraleira e bebem carrascão pela certa. Os Senhores da Banca, eventualmente já poderiam começar a olhar para os ordenados dos Administradores das Grandes Empresas, muitas delas ainda com capital público. Aí os ordenados já têm alguma dignidade. Pelo menos 7 dígitos de dignidade e garantidamente o dígito da esquerda só pode ser igual ou superior a um. Ora se nas Grandes Empresas se ganha assim, é justo que Banca se ganhe, digamos, com mais um dígito. Afinal a Banca é o sustentáculo da Economia e, sem uma Banca saudável como podemos nós ter uma Economia saudável? E sem gestores da Banca saudavelmente pagos como podemos nós ter a garantia de uma Banca saudável? E sem reguladores saudavelmente pagos como podemos nós ter Baqncos e Instituições saudáveis? Nesta situação, ter ordenados saudáveis é um problema de Saúde Pública. E, com a Saúde Pública não se brinca. Quem poderá queixar-se mais desta crise do que o Eng. Belmiro de Azevedo, o Sr. Américo Amorim, O dr. Ricardo Salgado, O Sr. Comendador Manuel Fino, o Sr. Comendador Horácio Roquete ou o Sr. Comendador Joe Berardo. Afinal foram eles que em poucos meses ficaram com as fortunas reduzidas a metade ou mesmo um terço. Vocês fazem ideia do que é adormecer no Verão com uma fortuna de 3 biliões de euros e acordar umas semanas depois com 1,3 biliões de euros. Perder 300 milhões de euros por mês durante seis meses seguidos. Se isto não dói então digam lá o que é que dói que eu já nem sei o que é a dor. E mesmo que sejam só 200 milhões ou mesmo 100 milhões custa muito, o que é que vocês julgam.

Chegamos assim, à óbvia conclusão que Portugal, à parte meia dúzia de nababos, escapou à crise por entre os pingos da chuva. Os Portugueses são mesmo assim, safam-se sempre, são os mais desenrascados da Europa. Papam crises ao pequeno-almoço. Por mais que os queiram lixar resistem sempre e vão resistindo a tudo. Até um dia.


PS – Preciso com urgência que me expliquem porque é que é necessário continuar com o segredo bancário se os portugueses se estão a borrifar para ele. É que quando vou a um multibanco levantar dinheiro, frequentemente encontro lá papelitos com os saldos das contas, o que me faz pensar que se estão a marinbando para o dito sigilo. Quando vejo que levantaram 10 € e deixaram a conta com um saldo de 1,45 € percebo porque não dão importância ao tema.
Só posso tirar uma conclusão: Como não deve ser para proteger os 10 milhões que vivem com os ordenados médios e as pensões dos portugueses, que existe o sigilo bancário, então deve ser para proteger um número restrito mas muito poderoso de pessoas muito ricas e pouco sérias ou políticos que pretendem enriquecer sem que se saiba como. Mas isto devo ser eu a delirar porque em Portugal isso não acontece. Nunca vi, não sei nem conheço ninguém que tenha sido condenado por esses crimes, para mim prova suficiente de que Portugal não está sujeito a essas poucas vergonhas que se passam lá fora como o tal Madoff, a WorldCom e a Enron, coisas lá do estrangeiro que felizmente não existem no nosso Portugal.

5 comentários:

Zé Costa disse...

Muito bem observado.

Joana Nicolau disse...

Excelente! O regresso do blog escória aos grandes artigos!

Ámen!

O próximo tem de ser um Freeport versus BPN versus CGD.

zé sequeira disse...

Caro Teodorias

O líder mostra a sua raça!

Cristina disse...

Bom fim de semana.
aqui, chove e chove, horrivel!

Chico disse...

Aqui não chove. Horrível para a agricultura.