TUDO ACEITA E NADA MERECE

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Cara escória Joana:

Antes de mais, duas achegas: senti-me lisonjeado pelas palavras que me dirigiu e pela importância que deu ao meu comentário; deixe-me esclarecer também que nada tenho contra a Mulher, latu sensu, muito menos contra a ala feminina da Escória, strictu sensu, até porque "filho de escória, escória o é", seja homem ou mulher (atente-se, "filho" e não cônjuge).

Dito isto, vou tentar (a mais não me sinto obrigado) explicar-lhe como isto funciona.

O MAE reúne-se em sessões ordinárias, extraordinárias e "conárias", segundo os seus estatutos.

As primeiras ocorrem mensalmente, as famosas "últimas sextas-feiras do mês", as quais, segundo consta, lhe causam alguma comichão. Nestas, a presença feminina está estrictamente (entenda-se estatutariamente) proibida.

As chamadas sessões extraordinárias, como o nome indica, surgem aquando de alguma efeméride ou de alguma ocasião excepcional que obrigue à reunião dos seus membros e, nas quais, a presença feminina está obviamente dependente de deliberação, havendo quórum para tal. Permita-me dizer que o MAE tem sido até bastante condescendente neste ponto, raramente deliberando em sentido negativo, caíndo, por conseguinte, em saco roto qualquer acusação de conservadorismo - pelo menos de conservadorismo naturalista, de índole metafísico-dogmática.
Isto para lhe mostrar que podemos dizer "não", mas explicamos o "porquê", apesar de nada nos obrigar a tal.

Last but not least, as sessões "conárias" (que inspiraram o "Kunami fresquinho" de uns felinos que por aí andam). Nestas sim, a presença feminina é pressuposto, caso o dia do Doutoramento de filha ou esposa coincida com uma sexta, a última do mês.
Como vê, somos uns mãos-largas e, se bem me lembro, a senhora sua mãe já teve o prazer de intervir numa destas sessões, preenchendo para tal os requisitos. Aliás, parece-me bastante elogioso para a Mulher a existência de tão exigentes condições.

Resta-me dar-lhe os melhores cumprimentos e um conselho de escória para escória: não deixe de estudar, já faltou mais!

Atentamente,

Chico

P.s: peço desculpa pela estemporâneadade do esclarecimento, mas só agora me foi possível dar a cuidada atenção que exigente tarefa merece.

4 comentários:

Chico disse...

A propósito...

"Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos."

Na sua tenra idade disseram-me isto e hoje compreendi finalmente.

Chico disse...

E mais acrescento, dizer "...como por toda a elite reivindicativa..." é um convite a ser expulsa deste blog, pois não só se associa à elite, arqui-rival do MAE, como se reivindica, violando o principio basilar da Escória, "tudo aceita e nada merece".
E a frase não será antes "Eu não freqüento clubes que me aceitem como sócio." de Groucho Marx?

Joana Nicolau disse...

Caro putativo(devido ao limbo em que o meu estatuto se encontra após o seu post), colega escória Chico:

Gostei de ler o texto, no sentido em que vejo que foi cuidado, estruturado e planeado, apesar das constantes referências ao facto de, ao estar a elaborar uma resposta, estar a ser na verdade condescendente porque nada no conceito basilar escória a isso o obriga.

Fico confusa, afinal se a importância da presença do elemento feminino no MAE é assim tão ínfima, indesejada, proibida até quando nos referimos às suas sessões ordinárias (nos vários sentidos da palavra), uma resposta tão cuidada e elaborada parece ser de uma importância insultuosamente elavada, quando dirigida a este (dúbio) elemento feminino.

No entanto, a partir do momento em que o post anterior a este se intitula "Finnis Escória", descubro que a minha reivindicação se relativiza extraordinariamente.

Afinal, "Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio" não faz sentido quando se perspectiva a situação em que a dinâmica dos próprios clubes seja, digamos, "auto-destrutiva" é uma palavra demasiado forte, fiquemo-nos por "condiciona fortemente a sua sustentabilidade a longo prazo".

Acrescento ainda que a minha citação "Só quero ser membro de uma organização que não me aceite como membro" foi uma adaptação de Patrick Hughes da afirmação de Groucho Marx. Mas debater o significado de qualquer uma das afirmações (no fundo, querem ambas dizer o mesmo) é talvez um exercício interessante para outro contexto.

Numa nota final, não faço quaisquer tenções de deixar de estudar, pois por mais inconcebível que possa parecer, tenho a felicidade das minhas motivações para o fazer não passarem pelo desejo de marcar presença num jantar mensal de sexta-feira à noite :)

As maiores felicidades,

Joana

Joana Nicolau disse...

Acrescento ainda:

- "toda a elite reivindicativa" existiu antes de mim, e como tal, não lhe pertenci nem pertenço;

- um princípio como "tudo aceita e nada merece" é no fundo um circulo vicioso, pois não se concebe o conceito de "tudo" que exclua "o elemento feminino qualquer que seja o seu grau de parentesco", pois assim deixará de ser "tudo" para ser "tudo menos uma parte". Proponho a resolução deste conflito conceptual, alterando o princípio escória para "Quase Tudo Aceita E É Dúbio Aquilo Que Merece De Facto".

Assim também se resolve que "filho de escória, escória é", embora, caso não seja do sexo masculino, não seja um escória legítimo e institucionalmente reconhecido. É um putativo Escória, conforme concluí no comentário anterior.

Assim, apesar de ser um putativo elemento escória, como não é claro aquilo que de facto merece, ficará sempre em águas turvas se merece de facto comparecer nos encontros escória ou não.

A modificação proposta resolveria o absolutismo contraditório do princípio basilar escória, mantendo o MAE numa ambiguidade legislativa, muito mais favorável ao seu funcionamento ordinário (mais uma vez, nas variadas acepções da palavra).

Nos melhores interesses do MAE,

Joana